Pacto de amor

*Felipe Pereira


Brian Mcland aconchegou-se no divã de uma das melhores psicanalistas de Nova Iorque: Karen Lee.

A sala de consultas era suntuosa e requintada, as paredes pintadas de branco davam a sensação de bem-estar. A Dra. Lee era atenciosa e paciente.

 — Como se sente hoje, Brian? — Perguntou a especialista.

 — Um pouco melhor. Já sabe o que se passa comigo?

Era a quinta consulta de Brian, e Karen já detectou o mal que acometia o seu cliente desde a segunda consulta, mas aguardou o momento adequado para dar o diagnóstico.

 — Você está passando por uma melancolia. Quando perdemos um ente querido, é comumente ficarmos tristes, o luto faz parte do processo. Porém você tem se bloqueado, não está deixando sair a dor que te aflige. É necessário sentir essa aflição, para se livrar dela.

 — Como farei isso? Se perdi a única mulher que amei! — Brian exclamou, angustiado. Tamanho era seu sofrimento.

 — Lembrando-se e se libertando. Conte-me, como você e sua esposa se conheceram, e conte-me também os momentos ruins que enfrentaram. Ainda se recorda dos detalhes?

Brian Mcland se recordava de cada momento. Fazia oito anos quando a conheceu, ele havia acabado de ser reformado, fora durante muitos anos um militar, servindo com honra o seu país.

O capitão Mcland já estava dispensado das suas atividades, poderia gozar da vida com o salário que o governo lhe dava. Para ele, era mais que suficiente; era solteiro e queria aproveitar para conhecer o mundo. Assim fizera, visitou a Alemanha, Noruega, Espanha, dentre muitos outros países. De cada um desses lugares trouxera um souvenir, para provar que desbravara a Europa.

No entanto, foi quando chegou a Amsterdã que seu mundo fora impactado. Brian ainda podia sentir a tarde quente e o sol escaldante daquele verão. Ele fora para um badalado restaurante à beira da baía da cidade, sentiu uma brisa fresca lhe soprar no rosto. Quando se virou para encarar a água, Mcland avistou a mulher que viria a ser sua esposa; ela era uma típica holandesa, pele clara e os olhos de um azul vivo.

Tomado por um impulso que ele não sabia de onde vinha, aproximou-se da mesa que a holandesa estava sentada, como não havia ninguém com ela, tomou a liberdade e pôs-se a falar:

 — É sempre assim tão quente?

 A mulher o encarou, como se estivesse divertindo-se com o atrevimento do homem.

 — Costuma abordar mulheres sozinhas? — Repreendeu-o, com um sorriso descontraído no rosto.

 — Não foi minha intenção ofendê-la. — Brian desculpou-se.

 A holandesa fitou-o, claramente achando graça no embaraço do homem.

 — Tudo bem, não tem perigo. Por favor, sente-se.

 O homem acomodou-se.

 — Brian Mcland — estendeu a mão para a mulher.

 — Lieve Margriet. — Respondeu a holandesa, aceitando o cumprimento dele. — É americano?

 — Nova Iorque, Estados Unidos.

 — Sou daqui mesmo. O que faz longe de casa?

 — Faz pouco tempo que me aposentei das forças armadas, estou só relaxando.

 — Amsterdã é o lugar ideal.

Lieve e Brian deixaram-se levar pelo diálogo que fluía, como se fossem velhos conhecidos. Assim que almoçaram, foram passear, o americano achou a cidade reconfortante, como uma promessa de calmaria depois de uma terrível tempestade.

Quando a noite chegou, o americano acompanhou a mulher até o seu apartamento. Despediram-se e prometeram encontrar-se novamente para almoçarem no mesmo restaurante.

Era para ser apenas alguns poucos dias de estadia, mas o amor de Brian foi tornando-se incontrolável, os dias deram lugar aos meses, e os meses trouxeram a união dos dois. Mcland casou-se com Margriet, e com ela viveu os seus melhores anos.

A vida dos dois já havia virado rotina quando os primeiros sinais da doença apareceram. Começou com enjoos, Lieve achara que poderia se tratar de uma gravidez. Contudo, quando o casal recebeu o diagnóstico, a vida harmoniosa que levavam juntos, saiu dos trilhos. Margriet estava com câncer de útero já em estado avançado. Os dois travaram, durante um ano, uma luta insana e árdua contra a morte, mas perderam. Lieve se fora, resistiu o tanto que pôde, agarrou-se até o último resquício de esperança, até não lhe sobrar mais nada a que se apegar.

Deitado no divã da psicanalista, Brian rememorava todos esses acontecimentos, às vezes relatando com dificuldade, outras vezes desenvolvendo bem a história. Quando encerrou sua narrativa para a Dra. Karen Lee, sentiu-se mais leve, como se um fardo lhe fosse arrancado das costas.

 — A morte não é o fim, Brian. As pessoas só morrem quando são esquecidas. — Falou a Dra. Lee. — Você irá esquecer sua esposa?

 — Irei levá-la comigo, até o dia que estaremos juntos novamente.

 — Então ela continuará a viver.

A sessão terminou, o capitão reformado retirou-se. Seria doloroso prosseguir sem o amor da sua vida, mas ele tentaria, para que sua amada pudesse existir mais um pouco em suas memórias.

 

*Estudante de contabilidade e morador de Nova Andradina

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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